quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

ENSAIO SOBRE A BAJULAÇÃO (OS PUXA-SACOS)

Por Mohammad Jamal


La Fontaine dizia que “todo bajulador vive à custa de quem o escuta”. O bajulador agrada o bajulado festejando-o como cães, cujos narizes e bocas estão sempre sujos das impurezas da sua própria imundície fisiológica. “Afastai com a ponta da adaga o sujo cão bajulador; ele é infiel.” O arquétipo bajulador está implicitamente agregado aos primórdios antropológicos e ao advento da moral sociológica. É preciso mergulhar fundo na sociologia; na filosofia, na antropologia e história, no vasto campo literário para biografa-los. Vejamos então alguns belos exemplares colhidos dos filósofos e pensadores gregos da antiguidade. Ao debruçar-se diagnóstica e analiticamente sobre morais básicas e as sutilezas do espécime bajulador; Plutarco (69 – 120 d.C.) nos conduz a uma reflexão sobre nossas próprias falhas, revelando o quão somos responsáveis por nos cercarmos de bajuladores, expondo-nos a riscos desnecessários. Ele também nos chama a atenção para o fato de que é ao acalentarmos um excesso de amor-próprio – tão salutar quando em boa medida – que não fazemos um julgamento íntegro e imparcial sobre nós mesmos: “o amante é cego a respeito do que ele ama.”, nos diz ele. Muita gente não resiste a uma “abanadela de ego”, no geral, os mais vulneráveis estão entre aqueles com baixa autoestima. 

Em sendo óbvio, não devemos omitir uma das principais referencias imorais, claro: eles são exímios mentirosos! Os puxa-sacos são expertos e bons psicoanalistas; eles farejam bem aqueles mais vulneráveis aos assédios das “loas” cantadas aos seus ouvidos. È no universo político onde eles se esbaldam em interminável festim. É o Éden e a Serra Pelada deles, é aí que parasitam a fartura e, onde vivem e envelhecem adulando e para adular. Esta palavra vem do Latim adulare, “lisonjear, afagar”. De início, parece que este verbo se aplicava aos afagos feitos num cão, depois aos que este fazia ao dono, abanando o rabo e se mostrando contente mesmo quando não fosse bem tratado. Esse figurativismo imaginado é muito apropriado e elucidativo. 

[Do lat. bajulatore.] Adjetivo. 1. Que bajula; adulador, adulão, aduloso, babão, cafofa, chaleira, chaleirista, incensador, lambedor, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco ou puxa-sacos, sabujo, xereta. Substantivo masculino. 2. Aquele que bajula; adulador, adulão, aduloso, babão, baba-ovo, banhista, cafofa, chaleira, chaleirista, cheira-cheira, chupa-caldo, corta-jaca, engrossador, enxuga-gelo, escova-botas, incensador, lambedor, lambe-botas, lambe-cu, lambe-esporas, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco ou puxa-sacos, sabujo, xeleléu, xereta, rêmora, peixe piloto… Ufa! E tem mais!

Conheci uma porção enorme desses capachos na vida; almas autorreprimidas, invejosos, revultados, venais e traiçoeiros. Contudo, é perceptível que eles continuam aumentando numericamente suas colônias bem como, sofisticando cada vez mais as suas artimanhas e em expertises. Os puxa-sacos estão ficando a cada dia mais sofisticados; mais perceptivos e mais capacitados para prognosticar, pressagiar e prenunciar com exatidão a maneira mais adequada de “acariciar” os egos e levar ao clímax, seus chefes! Um conhecido meu passou anos e anos sem trabalhar, apenas no bem bom do ar condicionado, usufruindo ótimos proventos e mimos financeiros devido à sua habilidade de adoçar o paladar e afagar o caráter fraco dos chefes, louvando-os elogiosamente e despertando o “Narciso” que mora nos fracos e incompetentes chefes políticos.

A técnica básica dessa gente consiste, como se vê, em elogiar os que mandam. Esta palavra vem do Grego eulogia, “elogio”, literalmente “falar bem de”. Forma-se por eu-, “bem”, maislogia, “falar”, do verbo logein, de logos, “discurso, fala”.

Ter modéstia é uma maneira de se proteger contra os ardis dos puxa-sacos. Sempre tratei os puxa sacos com muito desprezo. Não só enquanto chefiei alguns setores gerenciais na indústria farmacêutica, mas até hoje os desprezo, não nego. Segundo meu sábio avô, Nabil Hassan, “À víbora que tenta nos inocular seu veneno e ao morcego hematófago, que morde e assopra; esmague-lhes primeiramente a cabeça; faça o mesmo com o bajulador, são semelhantes!”. Embora soe um tanto escatológico, eu prefiro, ao invés do epíteto puxa-saco, chamá-los de baba-ovos! Vocês já imaginaram as mágicas e o contorcionismo necessários para acomodar confortável e simultaneamente equilibrados, um ovo na bochecha esquerda, sem babar o outro, mimado na bochecha direita? Incrível não? É incrível, mas posso assegurar-lhes eles fazem essa proeza com minúcias e extrema naturalidade!

É no serviço público que se concentram as maiores colônias de bajuladores babaovistas, conhecidos também como carreiristas, isto é, aqueles que, por reconhecida incompetência e capacitações qualitativas, buscam através artimanhas, expertises, intrigas e pequenos favores alçar melhores postos de serviço ou manterem-se nele! No universo dos poderes políticos, os antiquados critérios técnicos foram abolidos faz tempos! As obviedades das conveniências pessoais dão as notas máximas àqueles que melhor bajulam e babam testículos, em sendo sintético.

Naturalmente – como não poderiam fugir à regra – são seres perigosos, de péssimo caráter, que findam por trair exatamente àqueles a quem adularam e de quem receberam gratos benefícios. Esse fenômeno da moral, isto é, a traição, ocorre geralmente às vésperas do chefe deixar o cargo, seja por aposentadoria; fim de mandato; impedimento ou outro motivo qualquer. Neste momento os bajuladores fazem o que os vulgos denominam de “vira a casaca”. Passam a detratar justamente àqueles a quem antes bajulavam em troca de benefícios. Quando desmamado por algum político, desesperam-se esbaforidos e saem saltando siglas, como se brincassem de pular carniça, à cata de um vetor compassivo e susceptível a aplicação do seu irresistível popoarismo bucal, coisa que fazem com esmerada maestria. O campo dos cargos públicos por nomeação é uma horta viçosa e verdejante onde se banqueteiam fartamente em ócio do trabalho. A ponto de alguns componentes dos redutos políticos, parceiros invejosos, chamá-los de cracas marinhas. Lembrei-me até do “Edward mãos de tesouras”; nesse caso, as mãos em especial, não podem ser iguais às do Edward; devem contrariamente, possuir textura aveludada como a pele dos bebês recém-nascidos.

Dizem que bajular, como canja, chá de cidreira, orações e certas fórmulas litúrgicas, mal não faz; coisa que discordo radicalmente, embora seja esta a conclusão do livro “Você é o Máximo!” – A História do Puxa-Saquismo (Ed. Campus, 280 págs.), do jornalista Richard Stengel, ex-editor da revista Time, num levantamento sério e bem-humorado sobre bajulação e puxa-saquismo. Stengel usa muito o termo bajular associado à sedução. Bajular e seduzir, segundo o sociólogo Edward E. Jones são gêmeos intercambiáveis. A diferença situa-se nos adjetivos: na sedução é estabelecer uma atração; na bajulação é garantir uma vantagem. Em psicologia social, segundo Stengel, o comportamento humano é ambíguo e não é um indicador dos estados íntimos. Maquiavel dedicou um capítulo em “O Príncipe” a como evitar bajuladores. Dante Alighieri colocou os bajuladores no oitavo círculo do Inferno, na Divina Comédia.

O fato é que, como diz Maquiavel, “compraz aos homens serem elogiados”. Como tal, não há como ignorar que são os poderosos, as autoridades, os eleitos, os governantes, que geram os aduladores. Fossem eles mais resistentes e indiferentes às adulações, elas não seriam praticadas com tanta frequência. O Cardeal Mazarin, sucessor de Richelieu na Corte Francesa, ao dar conselhos aos aduladores, pode servir de contraponto ao texto de Maquiavel. Pois Maquiavel aconselha ao príncipe, e Mazarin aconselha aos aduladores:“Fala sempre com um ar de sinceridade, faz crer que cada frase saída de tua boca vem diretamente do coração, e que tua única preocupação é o bem comum. Afirma, além disso, que nada te é mais odioso que a bajulação. (…)… exercita-te em simular cada um dos sentimentos que pode ser útil manifestares, até estares como impregnado deles. Não mostres a ninguém teus sentimentos reais. Disfarça teu coração como se disfarça um rosto. Que as palavras que pronuncias, as próprias inflexões de tua voz participem do mesmo disfarce. Jamais esqueças que a maior parte das emoções se leem no rosto”. – (Breviário dos Políticos) – Cardeal Mazarin.

Não vamos terminar esse ensaio sem nos referirmos a um dos mais antigos e odiados bajuladores mencionado nas sagradas escrituras bíblicas: o Judas. Ele traiu a Issah, (Cristo), embora compartilhasse e usufruísse Dele um amor e atenção especiais como poucos Apóstolos. Ainda assim, sem fugir à regra que estatui os bajuladores, ele traiu a Jesus da forma mais abjeta e venal: por dinheiro; trinta moedas romanas! Dizem Judas deixou filhos e filhas a posteridade; que sua descendência cresceu e prospera ate hoje, gratuitamente nomeados a ótimos “postos” meramente decorativos, mas muito bem remunerados, ocupando chefias de gabinetes, secretarias, etc. e, desfilando pomposos pelos salões dos palácios e autarquias governamentais, onde praticam com esmerado talento seu sublime exercício profissional: bajulam!