segunda-feira, 5 de dezembro de 2016


"O preço do feijão não cabe no poema.
O preço do arroz não cabe no poema.
Não cabem no poema
o gás
a luz
o telefone
a sonegação 
do leite 
da carne 
do açúcar 
do pão
O funcionário público não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada em arquivos.
Como não cabe no poema 
o operário que esmerila seu dia de aço e carvão
nas oficinas escuras – porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema o homem sem estômago
a mulher de nuvens a fruta sem preço
O poema, senhores, não fede
nem cheira." - Ferreira Gullar