domingo, 8 de junho de 2014

Pesquisa aponta o lado positivo do ciúme.

O ciúme já inspirou letra de canções, peças de teatro, livros e novelas. Acredita-se que o ciúme constitui um lado negativo dos relacionamentos, gerando distúrbios e grandes transtornos para a relação. De certo, em muitos casos, o sentimento pode levar ao descontrole e, em casos extremos, à violência doméstica.

Daí surge a questão motivadora para a Dissertação Relação entre ciúme romântico e satisfação conjugal, desenvolvida por Vanessa Alcântara Cardoso, para o Programa de Pós-Graduação em Teoria e Pesquisa do Comportamento: como o ciúme, visto pelo senso comum como algo prejudicial ao relacionamento, evoluiu com a espécie humana? A autora tratou de desmistificar o conceito, demonstrando em seus resultados que é possível sim, que o ciúme seja um mecanismo de colaboração para a satisfação entre os casais.

Vanessa Alcântara Cardoso
De acordo com Vanessa Alcântara Cardoso, a dissertação trata do ciúme romântico, “usamos a palavra ‘romântico’ para especificar que é o ciúme entre casais humanos”. 

O trabalho, orientado pela professora Regina Britto, tem como base a Psicologia Evolucionista, uma área da Psicologia que analisa os indivíduos considerando, além da visão ontogenética – transformações sofridas pelo indivíduo desde a fecundação do óvulo até a morte, também a filogenética, ou seja, a história evolucionária da espécie humana. A filogênese humana inclui toda a história da construção anatômica e psicológica pela qual passaram nossos ancestrais no ambiente de seleção da espécie, que permite, hoje, sermos chamados de “espécie humana”.

Foram entrevistadas 200 pessoas, 100 casais residentes no Estado do Pará, heterossexuais e com relacionamento maior ou igual a seis meses. A faixa etária varia entre 18 e 65 anos e a escolaridade mínima aceitável era o ensino fundamental incompleto. O objetivo da pesquisa era investigar qual a influência do ciúme na relação dos casais e, mais especificamente, medir o nível de ciúme dos participantes, verificar o grau de satisfação dos pares e comparar a satisfação com o nível de ciúme encontrado.
Análise a partir da Psicologia Evolucionista

A análise dos resultados foi realizada a partir da proposta da Psicologia Evolucionista de base darwiniana, a qual pressupõe que os mecanismos psicológicos e comportamentais e as estruturas cerebrais neles envolvidas foram escolhidos por meio da seleção natural ao longo da evolução da espécie humana, por ter determinado a sobrevivência da espécie ao solucionar os problemas de adaptação por eles enfrentados, nos ambientes ancestrais.

Segundo Vanessa Cardoso, após a espécie humana ter se tornado bípede e o cérebro ter chegado ao tamanho atual, o casal teve que investir igualmente na sobrevivência dos filhos. A partir daí, as mulheres passaram a ser, gradativamente, mais criteriosas na escolha do pai dos seus filhos. Elas observam características comportamentais que indiquem a intenção do companheiro em compartilhar com ela a criação dos filhos. Ao mesmo tempo, os homens que irão investir todos os seus recursos nos filhos com aquela companheira também são exigentes e criteriosos. Eles querem mulheres que apresentem indicativos de boa saúde e fertilidade. Esse jogo de exigências é sequenciado por uma série de estratégias de manutenção do parceiro, que são comumente chamadas de ciúme. Exemplo: estar sempre por perto, controlar o tempo do parceiro, verificar seus pertences, entre outras.

Por que essas táticas de guarda são importantes? Por um lado, porque uma relação afetiva e amorosa demanda um grande investimento dos envolvidos. Por outro lado, há uma grande competitividade, entre homens e mulheres, por sexo sem compromisso, assim, as táticas de guarda, chamadas conceitualmente de ciúme, preveniriam a deserção de parceiros e a perda do investimento já realizado na relação. “O momento que poderia ser de deserção do homem, pois já fecundou a fêmea e poderia partir para outra cópula, é dedicado a prover recursos para sua prole, garantindo a sobrevivência desta”, explica a pesquisadora.
Amor e ciúme garantem o sucesso reprodutivo

Em seu estudo, Vanessa Cardoso afirma que o amor e o ciúme teriam evoluído para garantir o sucesso reprodutivo. Ou seja, numa relação em que haja amor, são menos recorrentes os episódios de infidelidade, desvios de recursos de uma prole para outra e desinteresse na manutenção da relação atual. O ciúme tem o papel de “proteger” a relação.

A diferença entre homens e mulheres é que “o ciúme do homem é mais sexual e o da mulher é mais emocional. Provavelmente, o homem terá mais problema com as questões sexuais da relação com sua parceira, enquanto a mulher se preocupa com a deserção emocional do homem em meio ao relacionamento”, afirma Vanessa. 

A famosa expressão “marcar o território” vem daí, quando o homem, para proteger a parceira, utiliza-se de táticas como: exibição de recursos, intimidação e violência física voltada contra o concorrente. Já a mulher investe na aparência para mostrar--se atraente, além de exercitar certa docilidade e subordinação ao macho.

Para determinar os níveis de ciúme e a relação com a satisfação conjugal dos entrevistados durante a pesquisa, Vanessa Cardoso usou a Escala de Ciúme Romântico (ECR), que mostra os graus de ciúme romântico entre os entrevistados, e adaptou o questionário de satisfação no casamento, questionário MARQ, que indica a satisfação dos participantes com o relacionamento atual. Os níveis de ciúme são: ínfimo, leve, moderado, intenso e excessivo. Para a pesquisadora, a satisfação no relacionamento é preponderante no bem-estar dos indivíduos, “considera-se uma relação como satisfatória quando os benefícios nesse relacionamento são maiores do que os custos”, avalia.

Casais satisfeitos com seus relacionamentos

Os resultados delinearam o perfil dos casais paraenses. O percentual de satisfação da mulher ficou em: 57% satisfeitas, 36% muito satisfeitas e 7% moderadamente satisfeitas. Os homens também estão satisfeitos no relacionamento, havendo, portanto, uma equivalência de respostas entre os sexos. O percentual de satisfação dos homens ficou distribuído assim: 56% satisfeitos, 39% muito satisfeitos e apenas 5% moderadamente satisfeitos. A pesquisadora acrescenta que, em termos percentuais, os homens parecem estar mais satisfeitos com o relacionamento do que as mulheres. “A mulher aparece como mais exigente, porque seu investimento no relacionamento é maior”, supõe Vanessa Cardoso.

Os dados da pesquisa ainda indicam que 73% das mulheres possuem um ciúme moderado, enquanto o maior percentual dos homens entrevistados alcançou 63% em relação ao mesmo grau de ciúme. A média do casal foi desnecessária, visto que isso iria mascarar o ciúme individual. Nos outros níveis, 14% das mulheres e 14% dos homens possuem um nível de ciúme intenso e 4% das mulheres e 7% dos homens possuem um nível de ciúme excessivo. Apenas 9% das mulheres e 17% dos homens possuem um nível de ciúme considerado baixo (ínfimo e leve). Os resultados atestam que os casais paraenses estão satisfeitos com o atual relacionamento e que o nível de ciúme está presente de maneira significativa entre os indivíduos.

Números


200 casais entrevistados, heterossexuais, com idade entre 18 e 65 anos.

57% das mulheres estão satisfeitas, 36%, muito satisfeitas e 7%, moderadamente satisfeitas.

56% dos homens estão satisfeitos, 39%, muito satisfeitos, e 5%, moderadamente satisfeitos.

73% das mulheres têm ciúme moderado, 14%, ciúme intenso e 4%, ciúme excessivo.

63% dos homens têm ciúme moderado, 14%, ciúme intenso e 7%, ciúme excessivo.


Fonte: http://www.jornalbeiradorio.ufpa.br/