sexta-feira, 6 de junho de 2014

Nascer no Brasil: resultados da maior pesquisa sobre parto e nascimentos

Em solenidade que reuniu pesquisadores e gestores públicos na sede da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, no dia de 29 de maio, o Ministério da Saúde apresentou os resultados do projeto "Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento", maior pesquisa já feita sobre gestações e nascimentos, cujo objetivo é reduzir a mortalidade materna e neonatal em todo o país.

A pesquisa é um estudo multicêntrico, coordenado pela Fiocruz em parceria com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e instituições públicas de ensino superior em todo o país. Os dados foram captados em 266 maternidades públicas e privadas, que realizaram mais de 500 partos no ano de referência. No total, foram visitados 191 municípios e entrevistadas 23.940 mulheres entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012.

A Universidade Federal do Piauí participou do projeto "Nascer no Brasil", por meio do trabalho da professora do Curso Técnico de Enfermagem do Colégio Técnico de Floriano (CTF) e do Mestrado em Ciências e Saúde, Dr.ª Keila Rejane Oliveira Gomes. A docente coordenou o grupo formado por entrevistadoras e supervisora de campo, responsáveis por captar dados em cinco hospitais: quatro em cidades do interior (São Raimundo Nonato, Picos, Campo Maior e Luzilândia) e um na capital Teresina.

Prof.ª Dr.ª Keila Gomes (primeira à esquerda), Maria do Carmo Leal, coordenadora geral da pesquisa (ao centro) e pesquisadores do Projeto Nascer no Brasil na cerimônia de lançamento do número temático dos Cadernos de Saúde Pública
Entre as várias constatações, a pesquisa mostrou que o número de nascimentos por parto cesariana está mais de três vezes acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Foram 52% de nascimentos por cesariana, quando a taxa aceitável é de 15%. A coordenadora geral da pesquisa, Maria do Carmo Leal, explica que o número excessivo de cesarianas expõe desnecessariamente as mulheres e os bebês aos riscos de efeitos adversos no parto e nascimento.

O levantamento revelou também que quase 72% das brasileiras desejou um parto normal no início da gravidez, mas só aproximadamente 43% realizaram esse tipo de parto. Na rede privada, o percentual chega a 90% de cesáreas e na pública quase 45%.

Os resultados iniciais do "Nascer no Brasil" foram condensados em 14 artigos, publicados na edição comemorativa de 30 anos do Cadernos de Saúde Pública, periódico trilíngue, que divulga artigos originais que contribuem para o estudo da saúde pública. A Prof.ª Keila Gomes, juntamente com sete pesquisadores, assina o artigo "Fatores associados à cesariana entre primíparas adolescentes no Brasil, 2011-2012".

Mesa Redonda sobre os resultados do estudo (da esquerda para a direita): Dr.ª Esther Vilela, coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher (MS); Dr.ª Suzanne Serruya, presidente do Centro Latino-Americano de Perinatologia, Saúde da Mulher e Reprodutiva (OPAS/OMS); Dr. João Paulo Dias de Sousa, professor do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP, e Dr.ª Maria do Carmo Leal, coordenadora geral da pesquisa

Os dados captados pela equipe da Dr.ª Keila Gomes confirmam a tendência nacional que é o maior número de partos por cesariana também entre adolescentes. "Na pesquisa que realizamos, constatou-se que 40% das primíparas (mulheres de 10 a 19 anos na primeira gestação) tiveram parto cesárea. O número é muito alto, porque a Organização Mundial de Saúde preconiza 15% como valor máximo aceitável".

A pesquisadora explica que a própria ciência já desmistificou a afirmações como a do médico americano Craigin, que em 1916, afirmou que uma vez cesárea, sempre cesárea: "Isso não é verdade, pois cientificamente está comprovado que uma mulher que teve o primeiro parto cesárea pode ter o seguinte normal". E defende a naturalidade do protagonismo da mulher e do bebê no processo do ciclo gravídico ao afirmar que " O parto existe para ser natural. O profissional de saúde é o apoio e o hospital, o amparo. E, nesse processo, quem deve decidir é a natureza e a própria vontade da mulher. As intercorrências, que são raras e poucas, é que devem orientar a necessidade ou não do processo operatório", finaliza.

Prof.ª Dr.ª Keila Rejane Oliveira Gomes coordenadora estadual do inquérito "Nascer no Brasil"
Os resultados do inquérito "Nascer no Brasil" são de relevante importância para o subsídio da toma de decisão das políticas pública na área de saúde da mulher e dos profissionais de saúde que atuam na área. Além disso, o banco de dados da pesquisa tem sido usado para formação de novos pesquisadores no país. Na UFPI, esses dados já foram utilizados por duas mestrandas do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Saúde, com suas defesas realizadas em março deste ano;  e duas novas dissertações em andamento, todas sob a orientação da Prof.ª Keila Gomes.

O número temático dos Cadernos de Saúde Pública com os resultados iniciais estarão disponíveis na base de dados do SciELO, em julho de 2014. Acesse o site do Projeto Nascer no Brasil para mais informações.



Fonte: http://www.ufpi.br