quarta-feira, 26 de março de 2014

O baile dos mascarados

O ativismo destrutivo entrega aos fardados oficiais a única vitória real que eles podem almejar contra a indignação coletiva


Por Guilherme Scalzilli

É fácil encontrar características do imaginário black bloc em outras formas de ativismo, especialmente as que compartilham a longeva herança anarquista. Mesmo as suas bases filosóficas mais recentes, cheias de biopotências, devires e outros conceitos intricados, agradam a um variado leque de opções militantes. Mas existe um diferencial poderoso no fenômeno black bloc: o uso obsessivo da palavra “tática” para definir-se.

A princípio, essa alcunha poderia insinuar um conceito instrumental da atitude rebelde, calcado na (enganadora) proposta de esvaziá-la de sentidos intrínsecos. O problema é que, manejada como simples ferramenta, a agressividade absorve a natureza dos objetivos aos quais se associa − inclusive o espírito fascista, que costuma insinuar-se pelas fileiras anônimas de manifestações abertas a qualquer plataforma.

Não há risco de contaminação reacionária na militância mascarada, entretanto, pois ela sempre incorporou padrões reivindicatórios claros, escolhendo as circunstâncias mais convenientes à defesa das bandeiras genéricas (anticapitalismo, antiglobalização etc.) que lhe conferem uma identidade coesiva. Soa ingênuo, portanto, concluir que a mera falta de líderes e regras formais garante a autonomia e a descentralização de seus adeptos. O próprio esforço para fazer da destruição seletiva uma mensagem, ou uma finalidade em si, descaracterizaria o suposto caráter espontâneo e intempestivo do gesto.

O enquadramento ideológico, a coerência programática e a dinâmica participativa demonstram que os blocos estão mais próximos de uma organização política do que o rótulo “tático” permite adivinhar. Têm afinidades, por exemplo, com as dissidências de esquerda que seguiram metodologias diversas no combate à ditadura militar. Nem todos os grupos armados achavam possível derrubar o regime, concentrando suas expectativas no apelo provocativo que ações de impacto poderiam ter sobre a sociedade.

É sob essa ótica organizacional que se revela a natureza propagandística dos ataques ao patrimônio privado. Eles visam chocar o público e marcar posição antagônica à dos meios ortodoxos de mobilização. O viés performático da ação direta alimenta a simbologia radical de uma revolta que não pode romper os laços com as instâncias representativas tradicionais, pois delas recebe um contraponto oportuno e uma base de potenciais seguidores. Sem vidraças quebradas, a ilusão da pureza “tática” desmorona.

A máscara participa da pantomima. É o ícone diferenciador do coletivo radical no ato de motivações pacíficas. Mas essa marca de funcionalidade também ajuda a incorporar os grupos black blocs às passeatas, que os assimilam como uma espécie de vanguarda protetora e reativa. Então eles se transformam na tropa de choque dos manifestantes.

O paralelo com as forças policiais não é gratuito. A indumentária significativa, o anonimato, o senso do dever e o uso seletivo (“tático”) da força compõem tanto os discursos dos repressores como os de seus adversários. Unidos no ódio pela imprensa, eles agora se espelham até na capacidade letal de atingir os profissionais desse setor. Medindo pedras e balas, bombas e rojões, a opressão estatal legitima a violência dos anarquistas, e vice-versa. Todos são parceiros de coreografia nesse carnaval midiático, fetiches úteis6 que o noticiário incentiva para despolitizar os movimentos sociais e a violência que eles sofrem.

Isoladamente, não há dúvidas sobre qual das hordas inimigas contribuiu mais para as demandas populares em 2013: a repressão dos cossacos trouxe novas multidões às ruas, enquanto a chegada dos depredadores marcou o início do esvaziamento dos protestos. Além de fornecer pretextos para a sua criminalização, a presença dos Black Blocs exaure as chances práticas da iniciativa reivindicatória. A pancadaria inevitável exime as autoridades de sequer encenarem a disposição para negociar.

Mas a maior contradição da fantasia tática do Black Bloc é exatamente a inviabilidade como estratégia reformista. Primeiro porque o ativismo destrutivo entrega aos fardados oficiais a única vitória real que eles podem almejar contra a indignação coletiva. Ao mesmo tempo, espelhando os procedimentos coercitivos dos poderes vigentes, o projeto insurrecional se parece cada vez mais com as próprias estruturas que afirma combater, afastando a militância em busca de novas formas de luta.

Talvez essa seja a verdadeira intenção dos mascarados, no fim das contas.