sábado, 11 de janeiro de 2014

Policial de Santa Catarina despede-se da policia e dos amigos com carta emocionante que mostra, em parte, a condição desumana em que os policiais trabalham

Caros colegas, Venho por meio deste email me despedir da Polícia Civil, pois na data de ontem entreguei meu pedido de exoneração. Durante dez anos estive nesta instituição, com dedicação exclusiva e fazendo meu melhor. Quem me conhece pessoalmente sabe que sempre tive grandes diferenças ideológicas com os rumos que a instituição como um todo segue e vem seguindo e por conta disto já me envolvi em grandes debates pessoalmente e via rede interna. Tratar os servidores como escravos, oferecendo as piores condições de trabalho possíveis, propagar que os mesmos são heróis, e dizer que se esta fazendo segurança pública seria cômico se não fosse trágico. Seria surreal se não fosse a realidade presente dia a dia. Durante nove, dos dez anos em que estive na Polícia Civil, acreditei que seria possível mudar a realidade presente de dentro para fora, acreditei na mudança de paradigmas de uma Policia Civil cumpridora da CF de 1988, de uma Policia Civil pautada pela democracia, acreditei na possibilidade da mudança. Durante toda este tempo tive muitas angústias pois me vi muitas vezes em situações as quais iam de encontro a meus princípios, mas que acreditava serem passageiras e necessárias para uma mudança maior. O último ano foi de grande dificuldade pois acabei adoecendo seriamente, contudo o afastamento médico para tratamento me deu novos ares e o entendimento de que minha caminhada dentro da Polícia Civil havia chegado ao fim. Desta forma, respeitando meus princípios, decidi não permanecer mais afastada para tratamento de saúde, uma vez que o afastamento destas condições sub-humanas de trabalho me trouxeram de volta a vontade de viver e portanto a necessidade de ficar longe e buscar outro caminho se fazia necessário. Nunca permaneceria em um trabalho somente pelo salário ou estabilidade que ele pudesse me garantir. Assim, compreendi que estava me desrespeitando e colocando em xeque o que para mim é o mais sagrado, o respeito a qualquer ser humano, permanecendo ligada a um trabalho que trata a condição humana sem nenhuma importância, uma vez que submete seus servidores a condições que todos sabemos. Uma instituição policial que não tem respeito as leis trabalhistas, que não oferece o mínimo suporte real para que seus Agentes mantenham a saúde mental em dia e consequentemente exerçam suas funções, tão estressantes, com o mínimo suporte emocional. Decidi que era chegada a hora de me respeitar, que era hora de sair. Escalas absurdas, com policiais sozinhos em delegacias fantasmas, que muito pouco fazem além de enlouquecer o ser humano que habita prioritariamente em cada Agente de Polícia. Esta, infelizmente, é a realidade da grande maioria das Delegacias. Sem contar os salários totalmente defasados, que não garante o mínimo para uma sobrevivência digna e todas as outras mazelas que conhecemos tão bem. Caros colegas, hoje me despeço com uma sensação de alívio, pois não podia mais suportar a penhora de minha dignidade. Muito aprendi nestes dez anos de Polícia Civil, uma das grandes lições é de que violência não se combate com mais violência. Caros colegas, nesta instituição encontrei pessoas com tanta vontade de fazer o bem que acabam sendo usados como bodes expiatórios, verdadeiros idiotas úteis do estado. Aprendi que todos que são subjugados acabam subjugando. Seria impossível listar aqui tudo o que aprendi, coisas muito boas e coisas muito ruins também. Contudo agradeço de coração a cada um que esteve presente em minha caminhada nesta instituição durante os últimos dez anos. Desejo aos que ficam que a humanidade esteja acima da instituição sempre, para que possamos ser uma família humana que se respeita e que faz uma mudança real na sociedade. A Policia Civil pode ser um divisor de águas dentro da sociedade que tanto buscamos, que se façam valer as leis, os direitos e garantias fundamentais, para todos sem restrição. Que os colegas façam valer seus direitos e não aceitem a pecha de heróis que em nada ajuda, somente mascara sua condição de humanos explorados por um sistema doente. Não fiz outro concurso público, nem pretendo fazê-lo. Minha caminhada de agora em diante é dentro das artes, mas precisamente do teatro, o qual me acompanhou por todos estes anos como uma aprendizado a parte, como um refrescar em meio a tanta dificuldade e que agora passa a ser meu trabalho. Gratidão infinita a todos e todas. Meus pedidos de desculpas sinceras caso tenha magoado alguém com algum posicionamento mais contundente. Tudo de bom sempre!
Beatriz Costa Alvarez