sábado, 6 de julho de 2013

"SOU FELIZ SENDO PROSTITUTA"

No dia 5 de junho, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, demitiu Dirceu Greco, responsável pela Campanha “Sou feliz sendo prostituta”, deflagrada em homenagem ao Dia Internacional da Prostituta, celebrado a 2 de junho. 
A campanha era composta por panfletos e vídeos protagonizados por profissionais do sexo, com mensagens como estas: “Não aceitar as pessoas como são é uma violência”; "Um beijo para você, que usa camisinha"; “O sonho é que a sociedade nos veja como cidadãs”, etc.
Pressionado por amplos segmentos da sociedade – sobretudo evangélicos – Padilha cedeu, prometendo que, enquanto fosse ministro, jamais algo semelhante voltaria a aparecer. Naturalmente, nem todos concordaram com a decisão. Dentre as vozes contrárias, está Cida Vieira, presidente da Associação de Prostitutas de Minas Gerais: «Quem faz o que gosta e como gosta, é feliz. Eu sou feliz na minha profissão».
As palavras da Cida revelam a inversão de valores a que chegou hoje a humanidade. Ignoro os nomes dos autores da Campanha. Mas sei perfeitamente o que se passa no coração das pessoas para me opor peremptoriamente à tamanha falácia. O coração humano foi feito para a felicidade, que não consiste na satisfação pura e simples de emoções, paixões e instintos. Ela depende unicamente do amor. E o amor é sempre uma conquista, não uma busca egoísta do prazer. Jamais os apelos da carne poderão satisfazer às exigências do espírito.
Para o Papa Francisco, a cultura assumida pela sociedade atual é narcisista, consumista e hedonista. Tudo gira em torno e a partir dos interesses de quem tem o poder nas mãos – nem que seja uma arma! Ninguém pode se opor! Segundo algumas fontes de informação, 27 mulheres são estupradas, todos os dias, em São Paulo. «Se Deus não existe, tudo é permitido», escreveu Dostoiévski (1821/1881). Por quê? Porque seu lugar será imediatamente ocupado por outros deuses, cuja consequência imediata é a perda dos princípios éticos e morais que sustentam o ser humano na organização da sociedade. Talvez tenha sido por isso que, mais ou menos na mesma época, outro escritor, Voltaire (1694/1778) – ainda que muito diferente em assunto de fé – completou a sentença com esta afirmação: «Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo».
Não sei o que um filósofo tão acentuadamente anticristão quisesse dizer com essas palavras. Talvez apenas que a ideia de um Deus-juiz ajuda a manter a ordem na sociedade. “Seria preciso inventá-lo” porque, sem ele, “ninguém é santo, ninguém é forte”, como lembra a liturgia e, por isso mesmo, ao invés de construir, o que o homem faria é destruir. Provam-no os crimes hediondos cometidos pela humanidade no passado e, sobretudo, a corrupção e a violência que se instalaram hoje numa sociedade que se julga evoluída, mas que sofre dos mesmos males – se não maiores – dos que ela critica nos antepassados.
Escrevi acima que Padilha voltou atrás «pressionado por amplos segmentos da sociedade, sobretudo evangélicos». Dou os parabéns a esses irmãos, por se oporem a uma campanha tão humilhante, sintoma da degeneração a que pode chegar a sociedade. De uns anos para cá, muitos deles assumiram várias das bandeiras que antigamente estavam nas mãos dos católicos. Destes, não se sabe por quais motivos, ultimamente, um número expressivo parece ter optado pelo silêncio e pela penumbra. São cada vez mais raros os que saem às ruas para defender os valores nos quais dizem acreditar. Esquecem que a força dos maus é a fraqueza dos bons. Que as minorias avançam porque as maiorias recuam. Apoquentam a religião, buscando-a apenas para resolver problemas pessoais.
Desculpem-me: enveredei pelo caminho da lamúria, que não leva a lugar nenhum! Ninguém muda sua opção de vida se não é amado. Nada se consegue abandonar se não se recebe algo melhor. É o que demonstra a santa festejada no dia 22 de julho, Maria Madalena. Sei que são raros os exegetas que a identificam – como fazia São Gregório Magno – com a prostituta santificada por Jesus: «Os numerosos pecados que ela cometeu estão perdoados porque demonstrou muito amor!» (Lc 7,47). Mas, suponhamos que o Papa Gregório tenha razão: o olhar que Jesus dirigiu a Maria a transformou de “madalena” em testemunha da ressurreição. Esta é a felicidade que nada e ninguém poderá arrancar!
Dom Redovino Rizzardo, cs Bispo de Dourados ( redovinorizzardo@gmail.com)