domingo, 30 de junho de 2013

Edson Vidigal escreve texto importante sobre os últimos movimentos sociais

O ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça escreveu um texto sobre os últimos movimentos sociais que por julgamos de muita importância tanto o seu autor como o próprio texto, tratamos de transcrever neste espaço. Aliás, não se enganem com o sugestivo nome do texto "VÂNDALOS". Leiam e tirem suas conclusões.

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VÂNDALOS

As passeatas seguiam mornas e insossas como uma enxurrada breve que se dilui quando a chuva acaba. Tudo parecia indicar que seria mais um arroubo instantâneo de uma insatisfação passageira.

Afinal, protestar contra 20 centavos a mais numa passagem de ônibus não faria muito sentido ainda mais considerando que era apenas um reajuste mínimo.

Não havia a menor possibilidade de revogar o reajuste, avisou o Prefeito alertando que haveria um rombo nas contas públicas impossível de consertar.

O bom senso parecia indicar que com aquela passeata, já em seu terceiro dia, a rapaziada só pretendia marcar posição para depois, mesmo indignada, voltar pra casa.

Como em tudo no mundo há um porém e quando não há um porém há um de repente não mais que de repente tal como ocorreu naquele poema do Vinicius, o de repente naquela passeata chegando à boca da noite aconteceu.

Uma saraivada de balas de borracha desfechada por alguns policiais sangrou rapazes, moças, dentre eles também jornalistas.

Foi quando, também de repente, surgiram na cena os vândalos. Os providenciais vândalos. Sem a reação deles acertando uma pedrada num policial e alcançando em danos alguns símbolos da dominação vigente – bancos e repartições, o bicho anunciado não teria pegado.

Em questão de horas a bandeira contra os 20 centavos atiçou os brios da cidadania de milhões de brasileiros pelo País afora e, aos poucos, fomos notando que a causa não era só pelos centavos. Era para repor o Brasil aos brasileiros.

Fora a canalha do poder, os donos dos partidos, os estelionatários da boa fé do povo, os ladroes do dinheiro público. Reforma politica já!

A revolução francesa começou por conta de um aumento no preço do pão, o que teria motivado Maria Antonieta, a Rainha, dizem, àquela proposta cínica – não tem mais pão? Dá brioche... Sim, brioche era o que a realeza comia.

Despertado enfim o gigante adormecido, o Governo se coçou e a Dilma, ah meu Deus, então falou aquelas coisas e quem não gostou foi investigar quanto nós pagamos para um japonês arrumar aquele topete dela e maquia-la – R$ 3.125 reais. Toda vez.

A polícia começou a caçar vândalos e a marca-los com disparos de tinta para não escaparem das garras da lei. Não confundir vândalos cívicos com arruaceiros marginais. Até aqui causaram menos dano à ordem pública do que os políticos aos cofres públicos.

Foram os vândalos que tomaram Cartago dos romanos criando um Estado independente no norte da África. Seriam ancestrais dos poloneses. Por via de consequência, mais remotamente, do Santo Padre, o Papa João Paulo II.

Portanto, mais respeito com os vândalos.

A nossa história registra um incêndio no prédio do Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão. A população revoltada queria impedir que se proclamasse eleito um candidato em que a maioria realmente não votara

O que aconteceu? O prédio da justiça eleitoral na Rua do Sol ainda ardia em chamas quando na sede do Tribunal de Justiça a Corte eleitoral se instalou.

Palavras do Desembargador Presidente ao abrir a sessão:

- Senhores! Vândalos nesta madrugada tentaram empanar o brilho desta eleição. No entanto, não alcançaram o seu desiderato. Vou proclamar o resultado da eleição...

E para efervescência da indignação geral, proclamou.

Dentre os vândalos, um estudante de direito - futuro Governador que depois foi Presidente da República. Ainda se fazem vândalos como antigamente?

Edson Vidigal, ex - Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA, escreve para o Jornal Pequeno às quintas – feiras.
Acesse o meu blog – EdsonVidigal.com