terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DESPEDIDA.

"EU TIVE QUE IR EMBORA, MESMO QUERENDO FICAR”

É com muito pesar e consternação que saio da Policia Civil/MA, na data de hoje, 04 de janeiro, pedi exoneração e deixo esta instituição com a certeza que o tempo que nela estive me dediquei de corpo e alma. O momento foi de muita tristeza, ter que devolver todos os apetrechos acautelados, enfim, cortar o cordão umbilical. Os que me conhecem sabem como tinha verdadeira devoção pelo trabalho e como amava muito tudo isso, daí a profunda dor em deixar aquilo que acreditava e pelo que meu coração pulsava mais rápido. Sou professora por formação, graduada em História Licenciatura, nunca pensei ser policial, para grande parte dos historiadores a polícia continua sendo uma instituição repressora e um braço armado do Estado. Ao entrar para esta instituição percebi que quando se está do lado de fora é fácil criar estereótipos e criticar, “maçãs podres” existem em todas as profissões e não se pode tomar os maus pelo todo. Minha visão, é lógico, mudou. Revolução a gente faz no dia-a-dia no exercício de nossas atividades.
Foram 03 anos e 5 meses desempenhando a função de policial civil, é estranho escrever sobre isso porque quando paro e penso que não sou mais policial civil, me dá um nó na garganta, um aperto no coração. E isso não se deve somente ao fato de ter devolvido a arma acautelada, a algema, o colete, e especialmente a carteira funcional momento mais tenso, na verdade pra quem sente a polícia pulsar nas suas veias ser polícia é muito mais do que a posse desses artigos. Podem me chamar de louca, mas eu amava muito isso. A gente reclama, leva rojão, ganha pouco, muito pouco, mas se diverte. Fui escrivã de polícia e além do trabalho burocrático do cargo, adorava “cair em campo” como se diz no jargão policial, ir em missões, sair na calada da noite para ir ao local do crime, cumprir mandados de buscas, mandados de prisão, tudo o fazia de bom grado. Aprendi muito ao longo desses anos dedicados a PC, dedicação mesmo, vesti a camisa e muitas vezes deixei minha vida pessoal em segundo plano para resolver problemas de pessoas que jamais havia visto, e como muitos colegas o fazem constantemente estive ausente do seio familiar, ossos do ofício.

Ponderei muito quanto à decisão de sair, ouvi conselhos dos colegas até chegar a essa posição, e mesmo depois de tê-la tomado achei que não conseguiria executar, tentava imaginar: como seria o dia seguinte? Parafraseando o Grupo Cidade Negra, hoje eu canto: “Eu tive que ir embora mesmo querendo ficar” (Letra de Onde você mora? Cidade Negra). O fator financeiro e as perspectivas no novo cargo que assumirei no judiciário falaram mais alto, infelizmente temos projetos e urgências que não queremos deixar para realizar em um futuro distante. Somos mal remunerados, temos salários aviltados e sobre nossos ombros recaem toda soma de cobranças e apesar de muito suor não se tem reconhecido o nosso trabalho, “quem ta aqui é porque gosta”.

Durante o lapso temporal que fiz parte desta instituição conheci algumas pessoas que levarei comigo pelo resto da vida, alguns companheiros de trabalho que posso dizer que a amizade foi um grande presente, profissionais competentes e que desenvolvem suas atividades cotidianas no anonimato e bem distante dos holofotes midiáticos.

Saio com certeza que nesta instituição há profissionais dignos e comprometidos e que estarei em boas mãos caso necessite de seus serviços... Parafraseando o ex presidente Jânio Quadros, "Saio com um agradecimento e um apelo.”

O agradecimento é aos companheiros que tive a honra de trabalhar, ou simplesmente conhecer no seio dessa instituição, companheiros com quem aprendi muito e com os quais compartilhei momentos inenarráveis. Agradeço ainda pelas palavras de conforto e incentivo. O apelo é a esses mesmos companheiros que permanecem, para que tenham cuidado com suas vidas, para proteger os outros primeiro devemos está vivos.

Aos que pretendem ter a carreira de policial civil como ofício, faço minhas essas palavras que li na rede social: “Querer ser policial, vai muito além de uma simples vontade. Não dá lucro, você não fica rico, corre mais risco de morrer, é discriminado por uma sociedade ignorante e hipócrita além de ter que combater a falha dentro do seu próprio sistema. Mas alguém tem que ir lá e fazer, alguém tem que dar a vida e não deixar que o inferno se instale. Alguém tem que livrar a sociedade ignorante e hipócrita, de tiros, balas perdidas, estupros, assalto... Ser policial não é uma missão de homens, e sim de anjos (Texto de “eu nasci para ser polícia”).
Au revoir, ou quem sabe, até breve companheiros!

*ELAINE AIRES
(elaineaireshst@hotmail.com)
Ex Escrivã de Polícia Civil
Foi lotada no 1º Dist. de Penalva/MA.
Atualmente exercia suas atividades na Superitendência de Polícia do Interior-SPCI.
Futura Oficiala de Justiça TJ/MA