terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Crônica de diversão - UM DINHEIRO PRO CAIXÃO DA MULHER...




Quando penso que já vi de tudo. Eis que me vem mais uma viagem. Como elas são constantes, histórias é não me faltam. Era sexta-feira, inicio de tarde e uma correria para não perder o ônibus. Como de costume, cheguei apressada e atrasada na Rodoviária, o ônibus já se punha em retirada. Pra minha sorte o motorista parou esperando que eu comprasse a passagem. Tempo suficiente para um daqueles pedintes criativos, distrair o motorista e adentrar o ônibus. Entrei e logo me acomodei percebendo a presença do pedinte bem arrumado, calça social camisa bem passada, cinto preto, cabelo na pasta, que dizia:
_ Boa tarde, pessoal, só um minuto da atenção de vocês. Minha mulher morreu e preciso comprar um caixão. Por favor, me ajudem, uma ajuda de qualquer valor, minha mulher tá morta só esperando o caixão! Fiquei calada, espantada, olhos fixos no sujeito e sem querer acreditar em tamanha ousadia. Olhei, olhamos, nos olhamos, pois para todos nós naquele ônibus aquela situação nos surgia inédita. Eu que costumo me manifestar em tudo que acontece no ônibus... silenciei! Também, um pedido daquele jamais ouvi. E o pedinte continuou, dessa vez de modo mais incisivo:
_ Anda minha gente, o ônibus tem que sair. Depressa! Ainda não recebi nada. Minha mulher tá morta, precisando de um caixão pra ser enterrada. Ligeiro! Tou pedindo e vocês negando, um dinheiro pro caixão! Que coisa! São miseráveis eh!? Não tem pena nem de uma mulher morta esperando pra ser enterrada? Tá certo isso?     
Com o ônibus já em movimento, sustei o espanto e gritei: motorista, para! Tem um homem aqui dentro pedindo um caixão pra mulher dele que morreu. Gargalhada geral !!!! Sem saber o que estava acontecendo o motorista parou, assustado veio até nós e perguntou:
_  Tem um caixão aqui dentro?! De quem é esse caixão?
_  O caixão é pra minha mulher, ela morreu precisa ser enterrada e estou esperando o dinheiro. Eles não querem dá. Bando de miseráveis. Preferiam ser assaltados, serem mortos por um ladrão, eu peço eles não dão, mas é assim mesmo, a gente se humilha, pede e nada!
Argumento válido! Vítima feita! Enquanto o motorista forçava a saída do homem uma passageira penalizada tentava desgrudar duas cédulas, na intenção de ficar com a de dez reais e lhe dá ao pedinte uma de dois. Verificando que ela lhe daria a cédula menor ele avançou na mão da senhora e disse: “dá logo tudo. Ainda fica com pena!” Claro que a manifestação foi geral. E aos gritos todos diziam... pilantra, mentiroso, devolve o dinheiro da mulher, desce, sai, cadê tua mulher, tá salgada esperando o caixão? Tu salgou ela foi? Toda prefeitura dá caixão, só tua mulher que não ganha, eh? Nem precisa dizer que o episódio garantiu gargalhada a viagem inteira e a história do pedinte jamais será esquecida, afinal, não é todo dia que a gente encontra uma figura dessas, ainda mais se esse caixão ele tenta comprar todos dias! Eu fiquei no meu destino, mas ao descer ainda escutei: “ei, moça, não desce sem deixar um dinheiro pra eu comprar o caixão pra minha mulher que morreu...” Ou viagem divertida, minha gente!